Baiano de Santo Amaro da Purificação, quarto filho do médico Joaquim Leal Ferreira e da Professora Izaura Leite Leal Ferreira, Mário Leal Ferreira nasceu no dia 8 de janeiro de 1895. Membro de uma família numerosa, Mário Leal teve seis irmãos: Emílio, Eduardo, Durval, Hilda, Carmem e Maria. Mário, desde tenra idade, sempre se destinguiu nos estudos. Sua mãe foi responsável pela sua alfabetização e ensinou-lhe, também, as matérias fundamentais do curso primário, ainda residindo em Santo Amaro. Em 1906, no “Gymnasio São Salvador”, instalado na Barroquinha, em Salvador, iniciou o curso ginasial, concluindo-o em 1911, sempre com ótimas notas como se pode no verificar no “Certificado de exame de promoção [...], prestado nos dias 19 e 21 de novembro de 1908, obtendo as seguintes notas: grau nove em português, francês, Inglês, latim e desenho; grau dez em geometria, trigonometria, álgebra e história universal.”

Em 1912 ingressou na Escola Politécnica da Bahia, concluindo o curso de engenheiro geógrafo em dezembro de 1914, aos 19 anos de idade. Em 1915, foi para Porto Alegre trabalhar na Viação Ferroviária do Rio Grande do Sul. Como já se destacara como competente profissional, foi designado para, na Alemanha, fiscalizar a fabricação de material ferroviário, adquirido pelo governo gaúcho para a viação férrea. Permaneceu na Alemanha durante os anos de 1922 a 1924. Aproveitou essa oportunidade para fazer um curso sobre higienização de cidades, estudo que aprofundou ao retornar ao Brasil.

Em 1927, deixou a Viação Ferroviária do Rio Grande do Sul e mudou-se para São Paulo, onde fundou a Companhia Mecânica e Importadora, prestando serviços ferroviários. Depois fixou residência no Rio de Janeiro, quando, decidiu completar o curso de engenharia civil, concluindo-o em 1928 na Escola Nacional de Engenharia. Embora atuando como técnico ferroviário, dedicou-se aos estudos de urbanismo e engenharia sanitária. Entre 1930 e 1932, fez curso de Engenharia Sanitária e Sociologia na Harvard University (Massachusetts, E.U.A.), como estudante graduado (felow) da Rockfeller Foundation. Em seguida, foi para as Filipinas, atuar junto ao combate à epidemia de febre tifóide. Como bolsista da Fundação Rockfeller, dedicou-se a estudos em engenharia e sociologia. Desenvolveu estudos e projetos em países como França e Alemanha, além de nações da América do Sul.

Retornando ao Brasil, entre os anos de 1933 a 1942, foi funcionário público federal como engenheiro sanitarista e professor da Escola Nacional de Engenharia, ensinando nas cadeiras de “Higiene Industrial e de Edifícios”, “‘Saneamento” e “Traçados das Cidades”. Já bastante conceituado como técnico competente, foi nomeado pelo Presidente Getúlio Vargas para diversos cargos: Chefe do Laboratório do Serviço de Águas e Esgotos da Cidade do Rio de Janeiro, Diretor Geral de Engenharia Sanitária dos Serviços de Saúde do Estado do Rio de Janeiro, etc.

Ainda na década de 40, retorna a Salvador para apresentar um plano de urbanismo para a cidade, como alternativa à proposta defendida pelo francês Alfred Agache, considerado à época um dos maiores especialistas em planejamento urbano e tendo sido responsável pelo primeiro plano diretor do Brasil, o "Plan Directeur" do Rio de Janeiro, em 1930. Os técnicos da prefeitura, comandada então pelo prefeito Durval Neves da Rocha, aprovam a proposta do baiano, mesmo tendo um custo um pouco superior ao de Agache. Como lembra o ex-secretário de Planejamento da Prefeitura de Salvador, Manoel Lorenzo, seu plano tem influência do urbanismo progressista, cujo maior expoente era Le Corbusier, e das idéias do urbanista e biólogo escocês Patrick Geddes, que rejeitava a adoção de modelos, não concebendo uma “cidade tipo”, mas tantas cidades quantas a realidade apresentasse. “Mário Leal concebia o planejamento como um processo e, por essa razão, previa o detalhamento de cada um dos setores integrantes do zoneamento, quando deveriam ser detalhados os centros de bairro. Em consonância com essa visão processual, aventava duas alternativas para a legislação urbanística: uma, geral, abrangeria toda a zona urbana de uma só vez; outra trataria a cidade por partes/setores, sendo de sua preferência esta última. No entanto, a alternativa que vingou e se transformou no Decreto-Lei 701/48, foi a primeira”, avalia Lorenzo.

Em abril de 1943, começa a funcionar no terceiro andar de um edifício na Praça Cayru o Escritório do Plano de Urbanismo da Cidade do Salvador (EPUCS), comandado por Mário Leal Ferreira. Foram desenvolvidas pesquisas de investigação histórica e científica na cidade e entrevistadas cerca de 4.500 famílias. Na sua proposta de trabalho, Leal Ferreira avaliava que “corrigir os defeitos de uma cidade ou lhe projetar o desenvolvimento deve ser, antes de tudo, motivo de prescrutação do passado, visando identificar, através de investigação histórica e científica, os fatores que influíram na sua evolução”. A proposta de trabalho previa um sistema integrado, no qual se articulassem duas redes de avenidas– uma para o tráfego mais lento, de acesso aos bairros, e que seria implantada nas partes mais altas, interligadas por viadutos, e outra, a ser construída nos vales, através de avenidas. Exemplos deste tipo de avenida são a do Vale do Canela e a da Avenida Centenário. No livro “O Macroplanejamento da aglomeração de Salvador”, A S. Scheinowitz explica a opção pela rede de avenidas de vale: “Caminhando no meio de jardins, a rede permite uma extrema mobilidade e uma grande segurança, já que o fluxo de carros é isolado das habitações. Além disso, os pedestres não usam essa rede, pois as habitações estão situadas onde chegam também os transportes coletivos. Enfim, a conjugação das avenidas de vale com as redes de esgoto, os canais de drenagem e a distribuição de água facilita muito a manutenção e ampliação dessas infra-estruturas. As avenidas de vale teriam ainda o objetivo de proteger a zona residencial dos ruídos, poeiras, gases de combustão dos automóveis e acidentes”.

O EPUCS apresentava propostas relacionadas ao encaminhamento de soluções para os problemas que a Salvador de então apresentava em diversas áreas. Na área de Saúde, por exemplo, foi proposta a construção de uma clínica tisiológica no Hospital das Clínicas, no Canela, e o Dispensário Ramiro de Azevedo, ambos voltados ao tratamento gratuito dos portadores de tuberculose, uma doença de alta incidência na época. O saneamento do Rio Camurugipe também começou com o EPUCS. Na área de turismo, em razão de carência detectada pelo pessoal de Mário Leal Ferreira, foi projetado pelo arquiteto Diógenes Rebouças o Hotel da Bahia, no Campo Grande. Já na área de segurança pública, foi definida a construção da Penitenciária Lemos Brito, no bairro de Mata Escura. A localização e a coordenação do projeto do primeiro Teatro Castro Alves foi uma das contribuições do EPUCS na área cultural. Outro projeto desenvolvido pelo Escritório foi a Escola Parque, no bairro de Caixa D’Água, que passou a contar com a direção do educador Anísio Teixeira.

O prazo para conclusão dos trabalhos do escritório estava previsto para 1946, quando parte do plano foi entregue ao então prefeito Armando Carneiro da Rocha. Foi solicitado um adiamento de oito meses para encerramento dos trabalhos. Em razão da complexidade do plano, porém, foi solicitado um novo adiamento em janeiro de 1947. No dia 11 de março do mesmo ano morre, em razão de problemas gástricos, Mário Leal Ferreira, assumindo o comando do EPUCS o arquiteto Diógenes Rebouças.

Texto-síntese construído a partir dos textos abaixo, disponíveis na internet: http://www.veracidade.salvador.ba.gov.br/v7/pdf/artigo2.pdf
http://osvaldocampos.blogspot.com.br/2009/04/quem-pensou-salvador-do-futuro-mario_13.html