04.05.2022

Prefeitura inaugura Parque Pedra de Xangô em Cajazeiras

Inserido na poligonal da Área de Proteção Ambiental (APA) Vale da Avenida Assis Valente, regulamentada pelo Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano PDDU/2016, o Parque Pedra de Xangô, foi inaugurado na manhã desta quarta-feira (4), cinco anos após o tombamento, pelo município, da Pedra de Xangô. O Parque Pedra de Xangô, se constitui como importante símbolo cultural da história de Salvador por ser um espaço voltado para a conservação ambiental, o desenvolvimento sustentável participativo e de salvaguarda, preservação e reconhecimento da Pedra de Xangô como patrimônio cultural afro-brasileiro.

Localizado às margens da Avenida Assis Valente, entre Cajazeiras X e Fazenda Grande II, o Parque Pedra de Xangô é um projeto coordenado pela Fundação Mário Leal Ferreira (FMLF) e elaborado pela FFA Arquitetura e Urbanismo com efetiva participação da comunidade local, especialmente de representantes de religiões de matriz africana e com a colaboração de acadêmicos, pesquisadores e ambientalistas. Sim, este é um projeto construído a muitas mãos e com profundo senso de coletividade.

"Para a Fundação, o projeto urbanístico não se traduz apenas em um desenho urbano, mas deve expressar, sobretudo, as relações sociais, culturais e religiosas que se dão no espaço. É por isso que consideramos de extrema importância a participação efetiva de todos aqueles que vivem ou trabalham no local.  O projeto do Parque Pedra de Xangô foi um grande convite para entender estas relações, trazer as discussões, construir um espaço sagrado, de valor religioso e de significado a persistente luta contra a intolerância e a discriminação. Um espaço verde que naturalmente abraça e reverência a Pedra de Xangô. Um belo Parque. Assim pensamos!" avalia a presidente da Fundação Mário Leal Ferreira (FMLF), Tânia Scofield.

Ampliação da poligonal do Parque - Com uma área de intervenção urbanística de 67.163,06m², o Projeto do Parque da Pedra de Xangô contempla a criação da via de monitoramento e o desvio da Avenida Assis Valente, o que, inclusive, permitiu a Prefeitura ampliar a poligonal do Parque protegendo a Pedra de Xangô, que está envolvida por uma vegetação remanescente de Mata Atlântica,  reforçando, assim, o caráter sagrado do local.

O equipamento apresenta-se como uma contribuição para a melhoria das condições socioambientais da região de Cajazeiras e adjacências. Moradores e frequentadores do local entendem que a criação da APA Municipal é uma estratégia foral e espacial que atua como escudo contra um avanço indesejado sobre a Mata Atlântica, evitando a derrubada de árvores para implantação de loteamentos clandestinos em áreas de proteção. É importante destacar aqui que o equipamento tem licença ambiental - Portaria 389/2019 (dom, de 18/10/19) e aviso de licitação, concorrência número 022/2019 (dom, de 07/11/19).

Taipa de pilão - A única edificação projetada é a um Memorial com cerca de 500 metros quadrados de área construída e que tem o objetivo de abrigar os registros e experimentos das principais funções do Parque, além de fortalecer os laços dos seus frequentadores com a natureza e o conhecimento das práticas religiosas e ambientais. O Parque é o próprio protagonista, tanto por questões religiosas, quanto por questões ambientais.

O partido arquitetônico do memorial materializa o conceito que permeou toda a concepção do projeto ao acompanhar a forma das curvas da encosta e utilizar materiais ligados a simbologia do ambiente: paredes construídas em taipa de pilão, tijolo ecológico e pilares metálicos, referências a elementos relacionados a Terra e ao Orixá Xangô. Nesse espaço foram projetadas uma sala multiuso, área para exposição de trabalhos, administração do Parque, sanitários e um espaço destinado à comercialização de comidas e artesanatos.

Tombamento - Símbolo sagrado e elemento cultural afro-brasileiro, a Pedra de Xangô, foi tombada em maio de 2017, pela Prefeitura de Salvador, como patrimônio cultural do município. No parecer técnico da Fundação Gregório de Mattos (FGM) há o entendimento de que a formação rochosa de 8 metros de altura e, aproximadamente, 30 metros de diâmetro, vinculada ao culto religioso afrodescendente, que a reconhece como Altar de Xangô, “é considerada um monumento natural, um marco na história de resistência daqueles que sofreram com a escravidão em Salvador, pois, segundo a tradição oral, servia como passagem e esconderijo de quilombolas perseguidos.

História – No livro "Pedra de Xangô: um lugar sagrado afro-brasileiro", fruto de dissertação de mestrado de Maria Alice Pereira da Silva, defendida no Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal da Bahia há importantes relatos sobre a história da Pedra de Xangô. Citando o historiador Stuart B. Schwartz, Maria Alice revela que “o Quilombo Buraco do Tatu, localizado a leste-nordeste da cidade de Salvador, próximo à atual praia de Itapuã - Ipitanga, teve início em 1743 e foi destruído, quase vinte anos depois, em 02 de setembro de 1763. Era um mocambo bem estruturado, possuía um sistema de defesa militar engenhosamente definido. Inúmeras trilhas falsas e armadilhas eram utilizadas para confundir as expedições reescravizadoras e facilitar a fuga durante os ataques”.